sábado, 20 de julho de 2013

Análise: 100 Armários, por N.D. Wilson



A primeira vez que soube da existência do livro 100 Armários (primeiro de uma trilogia de fantasia escrita pelo americano Nathan David "N. D." Wilson) foi em uma de minhas constantes idas à livraria. Estava a procura de títulos do gênero fantasia e me deparei com uma capa muito interessante. Tomei o livro da prateleira e passei longos minutos avaliando o conteúdo da capa e então um alarme disparou em minha mente e eu tive a maravilhosa sensação de que algo da grandeza de Nárnia ou Hogwarts poderia estar bem diante de mim. Isso acontece sempre que me deparo com um novo livro do gênero de fantasia, em parte por que, como todo amante do gênero, eu sempre espero um passaporte para algo encantadoramente novo e, em parte, porque na época (fazem uns 3 anos) eu precisava muito de uma aventura fora do comum.


Uma lida atenta ao texto contido na parte detrás do livro só serviu para alimentar as minhas suspeitas. O que li foi o seguinte:

"É sempre muito difícil escrever uma boa história de fantasia ou de ficção científica, e para isso é necessária a combinação de um talento fora do comum e de horas e horas de escrita. Em 100 Armários, N.D. Wilson impressiona qualquer leitor. Com a força de sua criatividade, o autor conseguiu criar uma centena de novos mundos maravilhosos e comoventes".

Após ler a sinopse na orelha do livro eu sabia que iria levá-lo comigo e foi o que fiz. Li o livro 4 vezes.

100 Armários se tornou uma de minhas histórias favoritas. Seus personagens, suas paisagens, suas palavras de sabedoria, seus diálogos, cada capítulo soam como algo lindo, incomum e fruto de cuidado e dedicação imensos, além de serem, sem sombra de dúvida alguma, frutos de um talento verdadeiramente incomum.

100 Armários é uma história sobre a importância de ser uma criança livre do que não é próprio a uma vida infantil, livre de regras que tornam a infância um quartel general em um mundo em preto e branco, em que outras crianças não são fontes de diversão e amizade, mas algo a se evitar, um risco a não correr. É uma história sobre a beleza de viver grandes aventuras, mesmo sendo ainda pequeno. Sobre a felicidade de pertencer a um lugar onde somos amados e, também, sobre poderosos armários e 100 possibilidades de viver uma grande aventura.

Henry, nosso protagonista e um herói improvável, é um garoto de doze anos que está em um ônibus a caminho de Henry, uma cidade no estado de Kansas, onde moram seus tios Frank e Dorothy Willis. Seus pais foram sequestrados em uma viagem e agora ele precisa de um novo lar. A cidade é um cenário rural e com aspecto solitário, com casas a extensões de distância umas das outras e aparentemente sem grandes emoções. Como nos é dito em um primeiro momento, "Henry, no estado de Kansas, é uma cidade quente. E fria. É uma cidade tão parada que às vezes a gente escuta uma mosca tentando atravessar a janela trancada da loja de antiguidades na rua principal". É neste cenário em que Henry passa a viver, com seus tios e três primas, além de Blake, o gato da família.

Após o desembarque, Henry encontra seus tios a sua espera. Ele agora faz parte de um lugar diferente, com uma história diferente. Ele levou uma vida que o ensinou a jamais esperar muito de nada, portanto, não há uma grande expectativa por parte do garoto com relação a sua nova situação. Talvez por que Henry não saiba que, apesar de a cidade tranquila, "já passaram tufões na rua principal. Se o vento começa a soprar, parece que nunca mais vai parar. Quando o vento acaba, a gente perde a esperança de que um dia ele voltará".

A escrita de Wilson é perceptivelmente singular, e tem um quê de mágica necessária a um livro de fantasia. Um toque especial, um cuidado notável. Há uma harmonia em suas descrições e uma melodia em sua forma de contar a história que me prendeu ao livro e me levou até a última página. Eu gostaria, realmente, de descrever com precisão essa experiência, mas vou parar por aqui. Posso apenas, em uma síntese, revelar que para mim foi como escutar uma boa história narrada por um narrador tão raro e bom quanto.

Uma outra característica notável na escrita do autor e que atribui a ela uma marca pessoal, é o "corriqueiro e simples". Os personagens são bem realistas, o que é muito importante em uma história de fantasia, em minha opinião. Penso que quanto mais reais são os personagens e suas ações, mais próximo estaremos do fantástico, do surreal. Dentro da casa da família Willis, onde ocorre grande parte dos eventos, encontramos uma casa repleta de realidade e com um toque do maravilhoso, do belo que está presente na certeza da existência de algo novo, de outras leis, de outros fatos, além da imaginação. O dia-a-dia do garoto Henry é como o nosso dia-a-dia, e cada fato comum ganha um toque incomum. Olhar o céu, andar na grama, limpar uma superfície, andar, cheirar, falar, esses atos são recheados de importância pelo talento de Wilson.

Após passar pelo que o autor descreve como "uma experiência espiritual", que consistiu em ir na caçamba de uma caminhonete até aquela que seria sua nova casa temporária, Henry passa por uma série de experiências novas, longe de seus pais, que são extremamente super protetores e bastante ausentes devido as viagens que realizavam. Desse modo, Henry sente-se bem em estar em Kansas. Na sua primeira noite em seu quarto (o sótão), Henry vive aquele que será o primeiro momento fantástico da história. Após cair no sono, depois de haver escutado um estranho barulho vindo da parede, Henry desperta na noite com a cabeça coberta por gesso e se depara com duas maçanetas que giram lentamente acima de sua cabeça, na parede onde antes havia apenas gesso. Com o passar do tempo, Henry descobre que aquele é o primeiro de um total de 100 armários, cada um estranho ao seu modo.

Henry e Henrieta, uma de suas três primas decidem investigar a presença dos armários e manter segredo sobre eles. Desse modo a magia começa a ensopar as páginas dessa maravilhosa história.

Anastásia, Penélope (Penny) e Henrieta são personagens com personalidade e foram bem trabalhadas na obra. Anastásia, a mais nova do trio é também a mais dialogativa, é aquela criança de quem todas as outras querem esconder algo e que sempre quer saber de tudo, mas que encontra alguma dificuldade em manter segredo. Penélope, a mais velha, é uma garota conservadora, que prefere não fuçar os segredos dos outros e que sempre encontra uma forma de repreender Anastásia. Tem bons modos e não faz muitas perguntas e é boa em tomar decisões acertadas. Henrieta é uma garota sonhadora, que vê aventura em todo rastro de mistério. Para ela, há sempre a chance de que algo mágico esteja por aí, aguardando ser descoberto. A sua falta de preocupação e cuidados com relação a possíveis más consequências aliados a sua curiosidade em saber o que há por trás dos armários acabam colocando a todos em perigo mortal, e em uma aventura entre mundos.

Neste ponto, o autor deslancha criatividade e cria um enredo de mistério, perigo e aventura. A ideia de chegar a outros mundos por meio de portais não é nenhuma novidade e alguns ainda poderão enxergar nisso uma espécie de plágio à obras como Nárnia, porém elas não poderão estar mais enganadas. Viajar para outros lugares em 100 Armários é uma tarefa mais complexa e perigosa que entrar em um guarda-roupas. Obviamente não é uma ideia original, mas Wilson recheou a ideia de viagem entre-mundos com suas próprias regras, em termos bastante criativos.

Apesar de tentar encontrar uma explicação racional para essa nova faceta da realidade, Henry não consegue descrever com base nas leis até então defendidas pela ciência a existência dos armários, mas não consegue e nem pode negá-las, ele então aceita e recebe essa nova realidade. Lhe dar com fatos novos faz parte da nossa existência, e é essencial reagir de modo producente em situações assim, sem ceticismo, mas com a mente aberta a uma nova possibilidade (Ainda não descarto a chance de um dia encontrar algo como o Guarda-Roupas em que Lúcia chegou à Nárnia, por enquanto me contento com os livros).

Além dessa nova descoberta, Henry acaba tendo acesso a algumas informações a respeito dele mesmo que o fazem questionar o rumo de sua vida. Para a idade que tem, Henry é bastante maduro e tem um senso de responsabilidade mais apurado que o de muitos jovens. Não é nada exagerado, cabe bem no personagem essa característica e que é fruto mesmo da educação que recebeu.

Os tios de Henry são também bastante singulares, em especial Frank. A existência de outros mundos está, de certo modo, ligada com a histórias de Frank, sua origem e sua forma de ver o mundo em que vive. Frank sente falta do lugar que ele considera como "seu". Para o leitor, a sensação de tristeza pelo sentimento do personagem é, creio eu, inevitável. Frank demonstra, também, possuir um conhecimento de vida que lhe legou alguma sabedoria, nota-se em seus diálogos, seu "jeito de falar", que é bastante interativo e descolado de um modo clássico (se é que podem me entender).

O livro um deixa muitos ganchos, mas realiza o dever de nos introduzir neste novo mundo, nos apresentando o bastante das leis que o regem para que possamos fantasiar as infinitas possibilidades que só nossas mentes sedentas por magia e aventura podem fazer.

100 Armários é uma história voltada ao público juvenil, mas também se encaixa bastante bem nos olhos adultos, cumprindo bem o papel de nos levar de volta aos 12 anos de idade, quando havia magia de sobra em nossas mentes e em nossas aventuras. Para o leitor solitário (como eu) essa é mais uma chance de conhecer o novo, de sentir a presença das fantasias escritas no livro ao nosso redor, de ter mais mundos para sonhar, mais histórias para aprender e mais personagens para conhecer.

Acho que vou concluir essa avaliação com a sensação de que ainda há muito que ser dito deste livro encantador, cheio de poder, com um narrador de primeira, personagens humanos e encantadores, paisagens atrativas e bem descritas.

P.S.: Talvez seja apenas fruto de minha imaginação fértil, mas durante a leitura eu encontrei alguns indícios de que o autor se inspirou ou quis fazer alusão à obra O Mágico de Oz. Vou explicar o que me leva a pensar desse modo.

Em o Mágico de Oz (um clássico da literatura infantil) Dorothy é uma garota que mora no Kansas com seus tios, sendo o seu tio um homem chamado Henry. Eles moram em uma casa numa fazenda. Dorothy e seu cachorro Totó desaparecem após serem levados por um ciclone juntamente com a casa, enquanto seus tios são salvos por estarem na segurança do porão. Além disso, no Kansas a realidade de Dorothy era em preto e branco, sem vida, sem cor, sem emoções.

Em 100 Armários temos o protagonista que se chama Henry, sua tia, Dorothy, e seu tio Frank (nome do autor de O Mágico de Oz), A história se passa no Kansas, onde o autor faz alusão a passagem de tufões (ciclones). O ambiente em que Henry passa a viver é o de uma fazenda, e, semelhante a garota Dorothy do clássico, Henry vive uma realidade insossa, até encontrar uma nova realidade, cheia de significados.


Resenha por Henrique Magalhães.


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