sábado, 8 de março de 2014

Análise: Marina, de Carlos Ruiz Zafón


Uma obra dedicada ao público juvenil que possui mensagens que gritam à nossa mente e nos deixam atordoados.

A literatura espanhola tem me surpreendido e esse livro só realça o apreço que. há algum tempo, tenho destinado a autores espanhóis, especialmente no quesito suspense e mistério sem perder o toque de sabedoria presente na literatura.

Marina é um daqueles livros que podem ser lidos em um início de tarde, enquanto a noite se aproxima. É uma história para ler, se emocionar e sentir saudades.

Sobre a Obra
* Todas as sinopses que encontrei desse livro demonstraram serem mega spoilers. Por isso fiz a minha versão.

Barcelona, final dos anos 80.

Oscar Drei, um jovem de 15 anos passa a maior parte dos seus dias em um internato e, nas horas que deveriam ser dedicadas à meditação fora de sala, ele escapa dos limites do local e explora as ruas de Barcelona, admirando as arquiteturas e deslumbrado com as histórias e aspecto dos casarões que podem ser encontrados por toda parte.

Em uma dessas fugas, após um incidente que dá início a uma série de consequências, ele conhece Marina, que além de sua melhor amiga, vem a tornar-se o seu maior segredo.

Algumas Particularidades

Marina foi publicado em 1999 e já vendeu mais 165. 000 exemplares. É o quarto livro publicado por Zafón e o mais difícil de categorizar. O livro tem bastante conteúdo de suspense, envolvendo pistas, conclusões baseadas nessas pistas que acabam sendo descartadas logo em seguida pela descoberta de outras pistas, uma dose de Deus ex machina (bem dosado), drama, terror e o elemento fantástico (elemento que consiste na dúvida por parte do leitor e do personagem a repeito do caráter supostamente (ou realmente?) sobrenatural de um elemento ou ocorrência).

É uma história urbana de mistério e intriga sobrenatural, onde os atores vêm e vão atrás de trilhas, lugares misteriosos, casas desabitadas e jardins abandonados, documentos anônimos, entrevistas e, finalmente, as confissões de personagens que tornam-se as ferramentas preferidas de Carlos Ruiz Zafon para " desentupir "o enredo.

Marina e Sua Aplicação na Vida Real

+ Uma Cidade-Personagem

Por ser destinado ao público juvenil, a escrita do Zafón é descomplicada, sem deixar de ser atraente, pessoal e dosadamente poética.

Em muitos momentos, durante a fuga do Óscar, somos apresentados ao cenário urbano que permeia toda a obra, desde lugares abandonados à pontos turísticos e abrangendo também o "mundo subterrâneo", que consiste em uma sociedade de pobres à margem da sociedade que acharam por bem viver nos túneis de esgotos da cidade.

Uma das singularidades da obra, que se torna bastante notável com o decorrer da leitura, é a importância dada à cidade e seus aspectos envolvendo clima, geografia, história. A cidade acaba se tornando um personagem do livro, com foco para os locais não muito habitados ou completamente abandonados. Mesmo aqueles locais que, por natureza, abrigam pessoas, conseguem parece solitários, tristes e nostálgicos. Há sempre uma referência simbólica a solidão e ao desespero por parte dos personagens diante desse estado destruidor, que podem se manifestar em um jardim escuro, uma rua coberta de névoa, casas abandonadas... O medo de ficar sozinho é quase palpável e a perda, que nos é inevitável, por vezes leva o melhor que há em nós: a capacidade de ser feliz.

Durante muitos momento somos apresentados a ruas escuras e desertas, casas e construções abandonas, deixadas à própria sorte, histórias envolvendo traição e perda e o sofrimento causado por essa perda, não necessariamente da vida, mas das circunstâncias que poderiam conduzir à felicidade.

+ Nosso Orfanato Com Uma Brecha no Portão

Zafón, por meio de Óscar, traduz o amor que a infância e o lugar onde ela foi vivida, pode despertar no adulto que nos tornamos, assim como também o desprezo que pode igualmente ser atribuído a lugares da infância, no caso de Óscar, o orfanato.

O orfanato é, para Óscar, um lugar vazio, mesmo quando se encontra apinhado. As presenças que ali estão não lhe são próximas ou especiais e os eventos que ali ocorrem não lhe são atrativos. Ali estão todos, recebendo a educação que lhes foi planejada, os conhecimentos que o sistema de ensino jugara necessários, numa espécie de ciclo criado pela sociedade. "Estudar", trabalhar, casar e criar filhos que sigam os mesmos passos. Um mundo imutável.

Como óscar, precisamos nos desvencilhar desses cilos que nos são impostos e que impomos às gerações futuras. Precisamos sair sorrateiramente pelo portão do Orfanato e explorar os mistérios que se escondem em todos os cantos em todos os lugares. Tal qual Marina, precisamos pensar por nós mesmos, formar uma mentalidade crítica, avaliativa, comparativa, capaz de saber não apenas que dois mais dois são quatro, mas compreender o processo pelo qual se obtém o resultado e constatar sua validade. É preciso sair da zona de conforto, se desconfortar com ela, detestá-la. Ainda que tenhamos que ser julgados, ainda que não nos compreendam, podemos encarar essa incompreensão e nos regozijarmos na certeza de que somos livres em um mundo de prisioneiros, ainda que essa liberdade se limite à nossa mente. Tal qual óscar, vezes nos veremos em condição de voltar ao Orfanato, em meio a todos os outros, mas a certeza de que a nossa mente não pode ser alcançada ou influenciada sem a nossa permissão nos dá motivos para continuar. A certeza de que sempre haverá uma brecha no portão pela qual poderemos escapar sempre que nos der na telha. Os próprios livros podem ser essa passagem, essa fuga para a liberdade.

+ A Magia Contida Na História

Por 'magia' eu me refiro ao encanto presente na obra. Um encanto que me atingiu, tal qual, acredito, era o propósito do autor. Como já explanei, os elementos da obra evocam um estado que denominamos 'solidão', um estado que me é bastante recorrente e trabalha em cima de elementos tristes e fúnebres, como a morte, a dor da perda, os mistérios que se seguem a uma catástrofe, tragédias românticas, insanidade mental...

Eu costumo dizer que quando você tem muito "pouco", fica mais fácil perder "tudo". A relação de Marina com seu pai (ambos enfrentaram a perda da mãe-esposa), evoca uma espécie de misticismo tão real, que passei a acreditar que ele realmente existe. Utilizo as expressões magia e místico por se aproximarem da grandeza que essa ligação assume: é como se dentro de nós houvesse uma essência capaz de nos manter vivos diante da separação eterna, da perda eterna de um componente vital. Quando essa perda é compartilhada por pessoas que são próximas e que decidem permanecer unidos mesmo na perda, a força e o desejo de ambos se mesclam e os mantém vivos e os mantém felizes, ainda que a dor permaneça em um canto da nossa mente.

Com a chegada de Óscar (que não perdeu nem pai nem mãe e  que nem sequer sabe o que é perder alguém que ama), nós tomamos consciência que existem pessoas que não tem algo pelo que sofrer, algo que, se for perdido, acarretará dor e sofrimento. E essa ausência é tão aterradora quanto o próprio sofrimento causado pela perda.

A ligação que passa a existir entre esses três personagens é aquela que devemos buscar enquanto vivemos: alguém que amemos, que seja amigo, que nos ame e signifique muito para nós. Pessoas que assumam importância grandiosa e que façam a nossa existência valer a pena.

Marina nos traz muitos personagens, cada qual enfrentando seus temores e movidos por seus princípios, por suas percepções e por seus interesses, medos ou orgulho. São personagens memoráveis, com histórias repletas de humanidade, de realidade. É possível sentir a dor sentida por cada um e, diante de tantos pontos de vista, nos vemos em um labirinto sem saber a quem deveríamos apoiar.

Há muito conteúdo a ser apreciado na obra de Zafón, sobre os quais poderíamos conversar por longas horas.Deixo então minha recomendação. Uma ótima leitura!

Zafón nos mostra que não é necessário ser um clássico para ser grandioso.

Por Henrique Magalhães

8 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado por visitar o blog, Ana! Sua presença é extremamente relevante! :D

      Excluir
  2. Viva,

    Gostei do comentário bem elaborado e fiquei com imensa vontade de ler mais livros do escritor, pois apenas li A Sombra do Vento e gostei bastante.

    Felizmente tenho que me empreste todos os livros do escritor, mas falta de tempo, não consigo ler tudo o que gostava ;

    Abraço e continua com boas leituras

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Paulo!

      Mais uma vez, obrigado!

      Li ele no formato digital e já tenho outros do autor na lista :D

      Abraço!

      Excluir
  3. Oi Henrique :)

    Meu deus, sua resenha me impressionou! Faz tempo que desejo ler Marina e agora com certeza irei conferir. Abraços!

    http;//euvivolendo.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Gabriel!

      Novamente você me trazer a boa notícia de que minha resenha serviu 'prá alguma coisa'! E é tão bom ouvir isso.

      Estou seguindo seu blog (que por sinal é bastante organizado (acho que eu não tenho esse dom o.O)). Assim que possível passo lá para ver algumas resenhas (gosto muito de resenhas) e deixar meus comentários!

      Abraço!

      Excluir
  4. Afinal...qual é o gênero desse livro?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Gabriel, acredito que o mais coerente seria um Suspense Sobrenatural. Caso leia, você verá que de fato não é fácil categorizá-lo.

      Excluir