sábado, 28 de dezembro de 2013

Análise: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury



Alguns livros são grandiosos por um motivo bastante peculiar: eles falam sobre livros.

Eu já tive a oportunidade de ler alguns livros que possuem como foco principal o ato de ler livros, isto é, a leitura de ficção, os livros e leitores. Esses são livros que, se bem escritos, tem um efeito divisor de águas na vida do leitor. Eles reafirmam o amor pela leitura, elevam seu significado e importância, abre-nos os olhos para uma nova perspectiva a respeito do leitor que há em nós, nos fornece ânimo para continuar esse empreendimento que acaba por se tornar não apenas um benefício pessoal, mas que se difunde e se espalha para outros, que nos torna interessantes, atentos, conscientes de nós mesmos e também dos outros, que nos fornecem as ferramentas necessárias para vivermos a realidade trágica do mundo em que estamos inseridos, que nos tornam referências e, além de tudo, nos agracia com o que podemos definir como um prazer insubstituível e uma experiência tão fantástica quanto as próprias histórias que lemos.
Fahrenheit 451 tem todos esses aspectos e ainda outros, tão elevados quanto.

Durante a leitura do livro, tentei me tornar o leitor que viveu na década de 50, período em que o livro foi escrito, em que apenas a ficção ousava prever escancaradamente os futuros artigos tecnológicos que surgiram como resultado do grande avanço científico que só parecia aumentar a cada dia, além de prever os possíveis futuros para as civilizações. Ao me tornar esse leitor, toda a narrativa soou aterradora, grandiosa! Não apenas pelo fato de o leitor dessa época não estar familiarizado com os artigos tecnológicos presentes na obra, mas por que como um leitor do futuro, o livro soa quase que profético.

Ray Bradbury nos leva a percorrer as ruas e casas de uma América que super valoriza o prazer e a satisfação física, que podem ser encontrados nas longas horas diante da TV, nas corridas em alta velocidade praticada por meio de automóveis, na violência, no consumo de drogas, o sexo irresponsável e em atividades que despertam a adrenalina, em geral, bastante perigosas. Uma América que despreza o conhecimento e o considera perigoso, sendo assim uma realidade anti-intelectual em que os livros são tidos como ameaças ao sistema vigente e, portanto, devem ser banidos por um grupo de profissionais denominados bombeiros, que nada mais são que queimadores de livros e que atendem às denúncias constantemente realizadas contra pessoas que ainda arriscam possuir livros, correndo o risco de ter toda a sua casa queimada e ser condenados à prisão.



Montag é um bombeiro, ele queima livros e considera que está fazendo o que é certo, pois assim o disseram e é assim que as coisas parecem que deve ser. Como todos na sociedade ele não faz perguntas sobre o porquê de as coisas funcionarem como funcionam, ele não questiona o sistema, sua vida e sua felicidade, não há motivos para dedicar tempo á práticas condenadas pelo governo e que, portanto, trarão desastres para a sociedade. Pensar e questionar não trazem benefício senão a desigualdade, o sofrimento, a ruína e é por esse motivo que livros devem ser banidos. Montag é feliz por ser um exterminador do perigo que acompanha os rebeldes que, ignorando a ordem imposta, continuam praticando a leitura de livro anonimamente.

Em muitos lares religiosos, no Brasil e afora, a ficção é vista como um mecanismo do mal e muitos pais, guiados por esse raciocínio, proíbem fortemente que seus filhos tenham acesso a essas obras. Essa ideia é, em grande parte, responsável pela crença, ainda que por não religiosos, de que a literatura de ficção é sinônimo de perda de tempo, fonte de entretenimento improdutivo e contraproducente, e aí reside um assassinos do hábito da leitura como uma atividade prazerosa. Uma busca na internet e vários artigos surgirão revelando as descobertas da ciência relativas a importância da leitura de ficção na infância e na vida adulta, em especial os benefícios para a sociedade como um todo.  Há muitos mais que, como Montag, estão queimando livros, destruindo o amor pela leitura e privando suas crianças e seus jovens não apenas de uma atividade prazerosa, mas que traz benefícios infindáveis para os seus praticantes e para aqueles que o cercam. As experiências adquiridas com a leitura de livros variados, de um modo geral, alimenta a criatividade e nos permite conhecer pontos de vistas e experimentar emoções que nos marcarão e seguirão conosco como guias para diversas circunstâncias da vida.

Montag conhece Clarice, uma jovem intrigante, que o questiona a respeito dos porquês de sua vida, uma garota alegre, que aprecia o que para Montag não passa de banalidades, elementos inúteis por inteiro. Diante dessa singularidade, Montag se vê diante de algo que ele deveria abominar, condenar e, como bombeiro, usar o seu poder para advertir e repreender tal manifestação de rebeldia para com a ordem que as coisas devem ter, ele porém se vê apreciando aquela irregularidade. Clarisse acaba se tornando responsável pela mudança no imutável mundo de Montag.

Apesar de não ficar explícito, temos muitos motivos para considerar que Clarisse é uma leitora de livros. Ela aprecia um bom diálogo, e é possível notar as luzes acesas em sua residência, onde mora com o tio, até horas tardias da noite, além de se poder escutar risos. O modo como Clarisse vê eventos simples como a chuva, o céu, as pessoas caminhando e o seu hábito de questionar nos levam á essa conclusão.

Influência é uma palavra que as vezes me deixa arrepiado. Clarisse, com sua influência, conseguiu trazer á memória de Montag lembranças momentos que ele sequer cogitava haver vivenciado. Lembranças que emergiram da profundidade líquida de um lago revestido por uma grossa camada de gelo que havia em sua mente. Influências, elas racham o gelo e com o tempo, o desintegra, o reduz a vapor. Muitos iniciaram suas aventuras no mundo da leitura depois de conhecerem suas Clarisses, que ainda são muito raras. Clarisses que andam na contra mão da sociedade, nadam contra a correnteza, caminham para onde o vento sopra, impelidos pela consciência do que vale mesmo a pena. Clarisses que questionam a ordem imposta, que alcança com suas palavras e estilo de vida, as mentes obscurecias pelo sistema, por uma ideia distorcida a respeito de algo, por uma crença infundada, por uma perspectiva embaçada, pela ignorância da própria ignorância. Montag é o retrato do resultado poderoso da influência, de viver por um propósito elevado, de carregar responsabilidades com a sociedade, de defender aquilo que se sabe ser o certo. Clarisse fazia parte de uma minoria quase extinta. O fato de uma maioria esmagadora acreditar em algo não define esse algo como verdade, não torna esse algo menos errado, brutal ou violento. Ainda que o mundo inteiro caminhe em direção ao que se nota ser o erro, o fim, continuemos em busca do começo. Muitos rostos olharão para nós com olhares distorcidos, desagradáveis e com desprezo, ou ira. Mas continuemos, ainda que isso signifique a recusa, incompreensão, a dor ou a morte.

Mildred, esposa de Montag, é uma mulher que acredita ser feliz mas que já tentou tirar a própria vida, passa horas diante da TV interativa que possui, assistindo a peças, novelas e interagindo com o que ela considera ser sua “família”, pessoas virtuais com quem costuma conversar. Montag não se sente atraído pela TV e por isso passa grande parte dos dias deitado, fazendo nada ou exercendo sua profissão de bombeiro. Após conhecer Clarisse, ele nota que passa a sentir uma certa irritação por sua esposa que acaba se transformando em raiva, pois a mesma não quer conversar e não vê sentido em tal atividade. Do que irão falar, afinal? De quantos quilômetros conseguem percorrer em um tempo estimado? O pouco que conversam é a respeito da compra de uma quarta TV e os programas que serão apresentados na mesma. Montag começa a desejar que sua esposa fosse como a jovem Clarisse e isso o faz questionar a sua felicidade. Algo está mudando dentro dele, e essa mudança está ameaçando arruinar o castelo que ele julgava estar firme em sua mente. Todas as suas crenças estão sendo postas em cheque.

Depois de acidentalmente ler um trecho de um livro enquanto realizava sua atividade em uma casa que acabara de ser denunciada, Montag se vê tentado a carregar o livro e não queimá-lo. Nesse mesmo momento ele se vê perturbado dia e noite com a cena que presenciou de uma senhora que decidiu permanecer para queimar juntamente com seus livros condenados.

Como Montag, muitas pessoas precisam apenas provar da leitura para notar o quanto ela é benéfica, desde que se respeite certos padrões, pois assim como uma criança recém nascida não come o alimento que come um adulto, um leitor iniciante ou uma criança não lerá o mesmo que um adulto. A leitura está ao alcance de todos e é preciso apenas abandonar o pré-conceito com os gêneros para que seja notado o grande poder que possui uma história, seja para uma criança ou para um adulto. Em um mundo em que os valores parecem estar invertidos e definir o certo e o errado parece uma complexa questão, os livros são como faróis que guiam no negror, como lentes que desembaçam nossas vistas, como escudo que nos preparam para a guerra que nos está reservada todos os dias. Eu não conheço melhores conselheiros que os livros, que nada mais são que homens e mulheres, alguns vencendo o limite imposto pela morte, de diferentes culturas, lugares, épocas; que possuem variadas perspectivas e conhecimento a respeito de uma gama inacabável de assuntos, homens e mulheres em papel e tinta.

Montag agora se tornou aquilo que ele perseguia. O caçador se torna a caça.

Quando recebe a visita do seu comandante, o Capitão Beatty, Montag percebe que o mesmo parece desconfiar do crime que ele cometeu e deixa-lhe subtendido que ele terá a oportunidade de se arrepender do crime cometido em até 24 horas. Depois de um longo discurso, Beatty tenta convencer Montag, com argumentos aparentemente irrefutáveis, a abandonar sua atitude rebelde e retroceder enquanto há tempo. Nesse ponto ele acaba por ser um retrato exato daqueles que utilizam desculpas para justificar seus erros. Beatty parece conhecer muito dos livros, ele de fato aparenta já haver lido muitos, o que acaba por conferir ás suas palavras certo crédito, por serem bem articulas e bastante bem empregadas, mas pode-se notar que o desprezo é o que fala mais alto. Por algum motivo Batty detesta os livros e mesmo depois de lê-loas, não vê neles senão total inutilidade, perspectiva que Mildred aceita sem questionar.

Montag tenta convencer sua esposa a ler juntamente com ele, o que ela faz a muito custo. Durante o diálogo que eles têm enquanto tentam compreender o que leem, Montag revela indignação pela indiferença que Mildred demonstra com relação a senhora que foi queimada juntamente com seus livros. Montag começa a notar a crueldade refletida nas ações das pessoas, começa a sentir nojo das coisas que fez, e vivencia uma confusão de sentimentos que mistura culpa, remorso, incertezas, medo.
Montag precisa decidir entre continuar levando a vida como bombeiro ou tentar fazer algo para mudar a forma como as coisas funcionam na sociedade. Mas, como um único homem lutará contra uma nação inteira?

Depois de tomar suas decisões, Montag agora se vê em um quadro inverso. Seus colegas de trabalho agora o estão perseguindo e ele precisa fazer o que estiver ao seu alcance para salvar a própria pele e encontrar um lugar seguro, além do mais, a cidade parece que está prestes a ser alvo de uma guerra a qual ninguém está atento e para a qual ninguém se preparou.

Fahrenheit 451 é uma crítica direta a influência da mídia e ao modo como a TV e a tecnologia da imagem vem substituindo valores na sociedade, distanciando as pessoas e as tonando meros corpos vazios, cujas mentes não conseguem realizar o ato de pensar por si, opinar, decidir, escolher. Além de evidenciar alguns aspectos da Guerra Fria e a queima de livros praticada pelo nazismo e que ainda hoje perdura, de um modo literal ou não.

Com um desfecho poético e de tirar o fôlego, penso que os leitores da década de 50 se esbanjaram com Fahrengeit 451, que traz muitos ensinamentos e nos revela  força e o poder por trás dos livros e dos leitores.

Leitura obrigatória.

Por Henrique Magalhães

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