segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Análise: O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger



J. D. Salinger é um daqueles exemplos de pessoas que podem ser citadas quando se quer falar de alguém que mudou o rumo das coisas em âmbito universal, que mudou as pessoas e continuará a fazer isso ainda depois de sua morte, pois quando você consegue colocar uma perspectiva completamente desconhecida e inovadora na mente de uma nação e mudar o seu modo não só de ver mas de ser e agir, ocorre um fenômeno em cadeia que ultrapassa anos e que perdura mesmo após a sua morte. Um evento com começo, sem fim. Salinger foi uma daquelas pessoas raras que podem ser citadas como pessoas que criaram uma geração. O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye), por sua vez, é o único de sua espécie, um feito sem igual, ímpar, um daqueles raríssimos livros que se tornam matéria-prima da qual derivam outros livros e que servem de inspiração para músicas, filmes e, por que não, assassinatos.



A obra que começou a ser em escrita entre 1945 - 1946 em forma de revista foi lançada como livro em capa dura em 1951, tendo como público alvo o adulto e que acabou caindo nas graças do público jovem devido aos temas presentes na obra que, de um modo geral, aborda a perspectiva dos jovens modernos com relação ao mundo que os cerca e a sociedade em que estão inseridos. O livro foi incluído na lista dos 100 melhores romances da língua inglesa escritas desde 1923 da Times em 2005, e foi nomeado pela Modern Library e seus leitores como um dos 100 melhores livros da língua inglesa do século 20.

Holden Caulfield é sinônimo de insatisfeito, confuso, romântico, incompreendido, deprimido, curioso, rebelde, reflexivo, indeciso e, como não poderia deixar de ser, inesquecível. Um adolescente, 16 anos, filho de pais financeiramente estáveis, estudando em um internato para garotos adolescentes e que já foi expulso de todas as escolas em que esteve. Holden é um personagem que instiga, que perturba, que confunde e que faz pensar em muitos aspectos da nossa vida individual e social, além do nosso relacionamento com o mundo, com a vida.

Quando digo muitos aspectos, estou sendo literal. A obra de Sallinger é bastante vasta no que diz respeito aos temas que são abordados (música, prostituição, drogas, sexo, festas, rebeldia, mentiras, violência, crimes, solidão, sistema de ensino, a vida em sociedade, dinheiro, pobreza, família, traição, cinema, alcoolismo, religião, amizade, etc.) e é por meio de Holden Caulfield e de sua mente repleta de muitas coisas que o mundo nos é apresentado, uma perspectiva que intrigará o leitor atento inevitavelmente.

Todo o romance ocorre em um pano de fundo em que impera o que é trivial, o banal, o fútil. Toda essa atmosfera que aparenta ser insignificante ou infrutífera é banhada pelo ponto de vista do Holden, pela forma como ele vê as pessoas, suas formas de vida, seus comportamentos, o modo como elas lhe dão com suas posses, as palavras que usam, suas reações diante de situações corriqueiras e convencionais, a forma como interagem com os outros, tudo isso é alvo da crítica sarcástica, que nem por isso deixa de ser profunda, do Holden, que está sempre fazendo uma reflexão ligeira a respeito das coisas, reflexão que as vezes se torna uma confusão de pensamentos e ideias indefinidas mas que incomodam, que mexem com algo, que ilumina algum aspecto da noção do modo como as coisas são e que acabam se desdobrando diante do Holden como uma mistura de elementos irritantes, os quais ele detesta, odeia, abomina. É como se houvesse sempre uma injustiça sendo praticada, como se as pessoas estivessem a todo instante cometendo crimes hediondos dos quais nem elas mesmas tem noção.  A vida das diversas classes de pessoas em Nova York e nas escolas em que Holden esteve é um dos elementos mais intrigantes se considerarmos o modo como ele os vê e a opinião que tem a respeito de aspectos da vida deles. Desse modo nos é dada a oportunidade de conhecer muitos “eus sociais”, estar diante de personalidades, hábitos e costumes de pessoas de todos os tipos, classe social, idade, profissão e etc.


Holden não suporta mais estudar em escolas abarrotadas por pessoas cujo comportamento o enojam, pessoas que levam uma vida que ele considera cretina. Depois de se dirigir à casa de seu professor de História (uma das matérias nas quais ele foi reprovado) e constatar que este é mais um cretino que o cerca e ter uma briga com um de seus colegas de quarto (cretinos), ele decide que não vai esperar até o dia das férias de natal para sair do internato. No meio da noite, ele abandona o lugar e decide passar alguns dias nos hotéis, bares, restaurantes e lugares de Nova York, antes de ir para casa e encarar a reação de seus pais com relação a sua expulsão de mais uma escola. É nesse cenário de Nova York nos anos 50 que somos inseridos em diversas situações corriqueiras vividas por um jovem confuso, incompreendido e que quer escapar à uma prisão que sua mente não consegue compreender muito bem.

Tudo o que ele quer fazer é conectar-se com alguém, qualquer um, mas o menino tem padrões elevados, muitíssimo elevados. Holden é um misantropo solitário que deseja acabar com a sua solidão e que encontra bastante dificuldade em lograr isso por causa de sua misantropia.

Ao sair do trem em Nova York, a primeira coisa que Holden faz é dirigir-se á uma cabine telefônica onde permanece por 20 minutos tentando decidir-se para quem ligar. Sempre que pensa em alguém considera os possíveis desconfortos que a interação por telefone poderá causar e por fim, acaba não entrando em contato com ninguém, mesmo havendo pensado em um número razoável de pessoas. Holden teme ter que aturar comportamentos que ele detesta nas pessoas e a falsidade que emana delas. E ele tem muitas razões para isso.

No fim, Holden está sempre tentando fazer amigos, mas tem sempre que encarar a falsidade das pessoas ao seu redor.

Na mente de Holden, todos são uma espécie de alpinista-social, obsecados pela aparência e impressão que passam aos outros, idiotas, estúpidos. A todo instante ele está usando a palavra falso (33 vezes) para definir alguém. Ele não quer crescer e conseguir um emprego e jogar golfe e beber martinis e ir para um escritório, e ele certamente não quer ter nada a ver com as coisas que os "bastardos" fazem. Holden se considera superior, e até ri dos outros, como se eles não fossem capazes de enxergar o que ele enxerga e isso soasse muito engraçado pois todos o veem como um jovem que está se perdendo, quando eles é que estão perdidos.

Holden também teve que lidar com a morte de pessoas próximas. A morte de seu irmão, Allie, de quem ele gosta muito, é uma realidade que ele aceitou porém não conseguiu superar. Quando sua irmã o questiona a respeito do que ele realmente gosta, a única coisa que praticamente lhe vem á mente é o Allie, ele consegue pensar no Allie, que já está morte e contra argumenta com sua irmã a respeito da validade da resposta, mesmo se tratando de alguém que está morto. Holden não consegue aceitar que uma pessoa mil vezes melhor que as outras  tenha que ter partido e deixado o mundo tão vazio. Além disso, Holden também encara uma não tão significativa, porém marcante, perda, que envolve um de seus colegas de quarto, James Castle, que suicidou-se pulando da janela do quarto.

Por vezes Holden demonstra ter medo da morte, por outras nem tanto e ainda outras ele considera a possibilidade do suicídio. Holden é um adolescente muito confuso a respeito de muitas coisas. Inclusive sexo.

Holden considera o sexo como algo degradante e por isso ele não pode satisfazer suas necessidades sexuais com garotas com quem ele se importe, pois seria como transforma-la em um objeto. Holden não consegue aceitar o sexo como algo bom, a ponto de nunca ter conseguido levar adiante uma iniciativa com uma garota, ainda que soubesse ou suspeitasse que ela o queria.

Holden entende as pessoas: como eles pensam, como agem, e por que eles fazem o que fazem. E ele não gosta, não quer ser igual a elas. Não quer ter que precisar de sexo, de perversão. Ele quer ser inocente, como Allie, seu irmãozinho que morreu aos 11 anos. Holden quer manter sua inocência e se ver livro de uma sociedade que está mergulhada no sexo, na depravação, onde em todos os cantos estão escritas a palavra FODA-SE.

Há muitos personagens memoráveis na obra escrita por Sallinger, ainda que esses personagens sejam citados em um curto único parágrafo. O Apanhador no Campo de Centeio nos faz refletir sobre a inocência perdida, o que pode ser visto como o abismo no campo de centeio onde caem as crianças que ali brincam e jamais conseguem retornar.

Holden viveu um momento de queda, onde clamou ao seu irmão Allie, eternamente morto e eternamente inocente, que não deixasse desaparecer, que não o deixasse cair no abismo. Pessoalmente, sinto-me triste por não ter havido um Apanhador no Campo de Centeio onde um dia estive brincando.

Por Henrique Magalhães

4 comentários:

  1. ''Holden também teve que lhe dar com a morte de pessoas próximas.'' Há um erro de ortografia nessa frase, analise

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    1. Corrigido, caro e atento leitor!

      Obrigado! ;-)

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  2. "Holden quer manter sua inocência e se ver livro de uma sociedade". Há um erro de ortografia nessa frase, analise.

    Felipe Scarta
    Colégio Dom Bosco

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  3. Também fiz uma análise literária tentando desmistificar e interpretar a obra para que as pessoas possam compreende-la com mais profundidade. Link abaixo:

    https://eguadolivro.wordpress.com/2017/09/21/analise-critica-e-literaria-de-o-apanhador-no-campo-de-centeio/

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