segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Análise: Crônica de Uma Morte Anunciada [de Gabriel García Márquez]



Crônica de Uma Morte Anunciada é o 4º livro do meu projeto de leitura diária e, até o momento, o mais perturbador.

Sobre a Obra

"No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo."

Trata-se de uma novela cuja narrativa, de caráter jornalistico/investigativo, reconstrói os eventos que precederam o assassinato do protagonista, Santiago Nasar, por meio de relatos de testemunhas, suas memórias e a dos que, de algum modo, possuíam algo a acrescentar. ou se mostraram ter alguma ligação com os eventos que desencadearam o crime. Quando praticamente todos sabem que há uma intenção assassina dirigida a alguém, permanecer indiferente, calar-se e tratar levianamente o fato nos torna também responsáveis pela morte e, portanto, assassinos. Ao fim da leitura do livro, sentimos o peso de nossas atitudes diante dos eventos do cotidiano e a nossa importância, para o bem ou para o mal, na vida daqueles que nos cercam.

Crônica de Uma Morte Anunciada e Sua Aplicação na Vida Real

+ Honra e Traição: Lançaremos pedras?

Um homem descobre que a mulher com quem acaba de casar não é mais virgem e, desgraçado pela descoberta, ele a devolve à casa de seus pais. Nesse contexto, desencadeia-se uma série de eventos que, poucas horas depois, resultará em assassinato covarde, brutal e injusto. Para "recuperar" a honra da família e da irmã violada, dois irmãos decidem matar a facadas o culpado pela desonra. Isso soa um tanto antigo testamento e século passado, mas é esse o cenário cultural em que somos inseridos por Gabriel Garcia, onde a morte de um homem devolve a honra tomada pela cópula.

Temos aqui:
- Um homem dilacerado pela quebra de perspectiva quanto a ausência de um elemento que considera chave para seu casamento (virgindade);
- Uma mulher que tentou esconder até onde considerou pessoalmente aceitável a ausência de sua virgindade, tão valorizada à época;
- Dois irmãos dispostos a matar para recuperar a honra perdida da irmã, honra que, por sinal ela perdeu de bom grado;
- E um suposto homem que vem a ser o pivô de toda a tragédia, o violador, que lançou a família da moça à miséria e vergonha e que precisa ser morto;

Somos inclinados a pensar que isso é coisa do passado, que é o tipo de atitude que dificilmente se desenrolará na vida real e, em certo aspecto isso tudo ficou para traz, mas em outros aspectos, não ficou. Vou dar uma de psicanalista de botequim, mas acredito que como leitor moderno, compartilho com muitos outros leitores dessa obra uma certa indignação e até um quê de ironia, com respeito a esse tipo de cultura onde recuperar a honra justifica o assassinato ou a violência, quando na verdade essa é apenas uma manifestação de vaidade, a sensação de que o desrespeito ou o descumprimento de uma mera convenção social (no caso, a perda da virgindade de um membro da família já adulto) pode-se considerar motivo para piadas e degradação, uma verdadeira humilhação e somente a atitude bárbara marcará o território e trará o respeito ao mais forte. É, não somente soa como uma atitude animalesca como de fato é o que é. Porém, se avaliarmos a sociedade, veremos em muitos momentos esse mesmo espírito de vingança, de honra, esse impulso para apedrejar o pecador, para defender um ideal de natureza mesquinha ainda que seja preciso usar a força, a ofensa, a humilhação, em suma, ainda que seja preciso convocar o animal que há em nós como nós mesmos. Acredito que evoluímos grandemente para resolver problemas com os quais nos deparamos na sociedade como pessoas civilizadas, sem ferir e sem ser ferido. Ceder a esse impulso de partir para cima e agredir diante da humilhação é, acredito, parte do que somos, mas se queremos viver em sociedade (e sabemos os grandes benefícios desse modo de vida) precisamos entender que não somos inimigos de nós mesmos e há meios mais eficazes de resolver as situações, seja a traição, seja o orgulho ferido, a humilhação. Infelizmente a sociedade ainda mantém a noção de honra dos séculos passados, e isso, se pararmos e refletirmos, se manifesta em casa, no ambiente de trabalho e entre os círculos de amizade.
Lançaremos pedras, quando descobrimos o benefício do diálogo, da conversa? Homens e mulheres não são como os objetos que possuímos, homens e mulheres têm vontades e ninguém têm o direito de prendê-los em gaiolas.

+ Assassinos à Distância

A morte de Santiago Nasar é causada não somente pela ação de dois homens munidos de armas, mas também, indiretamente, pelos moradores do bairro, desarmados, porém igualmente culpados. Muitos, por inconsciência, ignorância, indiferença, por não tê-lo em estima ou por querer vê-lo morto, contribuíram para a tragédia de uma morte anunciada simplesmente não fazendo nada para evitá-la. Na obra de Gabriel Garcia, outro elemento que também se manifesta na vida real é trazido à tona: matamos não apenas com facas de metal, mas também quando não consideramos, quando, conscientes da dor ou perigo aos quais o outro está exposto, não nos dispomos a amenizar a dor e alertar sobre o perigo.

Na sociedade em que vivemos há um comportamento que nos é imposto: a indiferença. Vemos dor e sofrimento a todo instante, em todo lugar, ainda que do conforto de nossas poltronas, mas apenas levamos adiante nossa vida e ignoraramos o outro. De fato, não podemos resolver os problemas do mundo individualmente, mas juntos sim. Há pessoas que sofrem e pessoas que morrem todos os dias, pessoas por quem passamos e ignoramos. Infelizmente é uma inevitabilidade do ser social da cidade grande, e incorremos no perigo de nos tornarmos grandemente indiferentes uns aos outros. Há ainda os que estão perto, amigos, conhecidos, mas insistimos na indiferença: briga de marido e mulher não se põe nossa colher, reflete nosso comportamento diante da injustiça imposta aos que estão ao nosso redor. Pessoas não deveriam morrer de fome todos os dias, não deveriam morrer de sede, mas morrem. É fácil esquecer a dor quando não a sentimos. Podemos fingir que tudo isso não é responsabilidade nossa, que tudo está muito distante e que nada podemos fazer, mas empunhamos todos os dias nossas facas para matar, somos assassinos à distancia, vivemos numa inconsciência proposital e esbanjamos nossos bens, estamos vestidos,temos água, comida, emprego, é o que importa... não é?
Estamos rodeados de mortes anunciadas e nos mantemos como que ignorantes a respeito desse anúncio.

Mais uma leitura altamente recomendada.

Por Henrique Magalhães

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